• Miguel Duque Camacho

“Nunca é fácil dizer adeus a quem se ama”

Um dos maiores dramas que todo o ser humano tem que enfrentar na vida, é de um dia deparar-se com a morte de uma pessoa querida.

A partida de alguém, é sem dúvida uma experiência que desperta dentro de nós um misto de emoções.

O primeiro sentimento que vem é o de negação; e logo mais vêm as perguntas que questionam tudo, até a nossa própria existência.


A fase de negação traz questões e pensamentos como:

“Será que isto é mesmo verdade?”

“Não pode ser verdade!”

“Quem me dera que isto fosse um pesadelo e que eu acordasse amanhã e nada disto fosse verdade”

“Provavelmente aquela pessoa, mais logo, chegará a casa e dirá que nada disto é verdade”


Depois da negação, vem o choque:

“Como vou viver daqui para a frente?”

“O que será da minha vida?”

“Nunca mais verei esta pessoa!”

“Nunca mais ouvirei a sua voz ou sentirei o seu cheiro!”

“A minha vida provavelmente acabou”

“Não quero viver mais, prefiro ir embora também!”


Depois do choque, vem a fase dos porquês e da culpa.

Essa é a fase onde temos que frear (travar) e mostrar às nossas emoções que a "razão" deve estar sempre acima das emoções.

Digo-lhe, que os porquês, no momento do adeus nunca lhe levará a lado nenhum.

Pensamentos como:

“eu podia ter feito mais”, “eu podia ter evitado isto”; “podia ter amado mais”; “podia ter dito mais”; nunca, mas nunca lhe levarão a lado nenhum.


As coisas são como são, e as coisas foram como foram.

Colocar a culpa sobre si e procurar os porquês do que aconteceu, não trará a pessoa de volta. Afirmo-lhe que tão pouco ela algum dia cobrará isso de você.

Então para quê mortificar-se?


Dizer adeus a quem se ama é reaprender a viver, é dar um passo de cada vez como uma criança quando começa a andar.

É a resiliência da criança, de levantar-se e caminhar, que fortalece os seus músculos e o seu equilíbrio.

Semelhantemente, os primeiros passos após perder alguém, nunca são fáceis.

Em alguns passos, você vai duvidar e cair como uma criança, em outros você precisará que alguém lhe dê a mão; mas é importantíssimo você levantar-se e caminhar em frente, porque essa é a atitude que vai fortalecer as suas forças e trazer de volta o seu equilíbrio.

Crer em Deus é uma ajuda preciosa. Se esse é o seu caso, peça a Ele todos os dias para que lhe ajude nesse retomar da vida.


Existem tempos e formas de luto para cada pessoa


Viver um dia de cada vez e fazer o seu luto é sumariamente importante.

Infelizmente, ideologicamente e até culturalmente, na nossa perspectiva latina, o luto significa algo negativo, pesado, escuro, isolado, depressivo e triste.

Mas quero dizer-lhe que o luto não é viver infeliz, é viver sim, as coisas de uma maneira diferente e a uma velocidade diferente.

O luto não significa parar de viver, mas sim reaprender a viver.

Luto é dar tempo às coisas, e deixar a dor profunda, aos poucos, ser transformada em saudade.

Conto-lhe que quando o meu pai faleceu repentinamente em 1999, uma das maneiras da minha mãe viver o seu luto, foi tratar de dar toda a roupa dele, pois abrir o roupeiro e ver a roupa, trazia-lhe grande sofrimento.

Diferentemente, quando a minha mãe faleceu em 2013, eu já era casado e ela vivia com as minhas irmãs.

Muitas pessoas amigas, aconselharam as minha irmãs a desfazerem-se das roupas, porém eu e a minha esposa aconselhamos a que elas fizessem como sentissem melhor.

Pois não há fórmulas para tudo na vida.

A fórmula da minha mãe aquando da morte do meu pai, não tinha que ser a mesma das minhas irmãs em relação à minha mãe.

Entenda que todos somos iguais e todos somos diferentes.

Dê espaço ao luto e tome as decisões que lhe doa menos, desde que levante o seu semblante e a sua motivação. Pois nem sempre escolher o que dói menos, é a melhor decisão para seguir em frente.

Mas tome decisões por si, e pela pessoa querida que partiu, pois se ela ainda estivesse presente, não lhe quereria ver abatida e parada na vida.

É verdade ou não é?


Retome a sua vida aos poucos e não deixe de fazer o que gosta


Quando a minha mãe morreu, apesar de ficar firme, isso abalou-me imenso interiormente.

Afinal de contas, a pessoa que mais fez por mim, que mais me ajudou, que mais me amou, que mais expressava a minha falta, simplesmente deixou de estar presente.

Além do mais, o que mais me custou, é que sei que alguns dos seus sonhos ficaram por realizar.

Mas propus no meu coração em não deixar de fazer absolutamente nada do que fazia.

Mudei prioridades? Claro que sim!

Mas não deixei de fazer o que fazia. Pois aquilo que eu fazia na igreja, na música, e em outras coisas, enchia a minha mãe de orgulho.


Talvez você deixou de fazer algumas coisas, desde que a sua pessoa querida partiu.

Mas lembre-se, a melhor homenagem que podemos prestar, é fazer aquilo que nós mais gostamos e que a elas orgulhava.


Deixe o processo de luto cicatrizar a dor profunda que você sente. Desse processo resultará um sentimento chamado “saudade”.

Há pessoas que acham que a saudade é algo terrível, porém a saudade leva-lhe a um lugar do seu coração onde você guardou as melhores memórias e recordações.


A saudade é mágica!


A saudade, faz-me lembrar quase todos os dias da minha mãe.

Lembro-me dela, em quase todas as decisões que tomo. Pois são tomadas segundo aquilo que ela me ensinou.

Quando como um prato de milho cozido com chicharros, que é um prato muito tradicional da terra onde nasci, lembro-me dela.

Quando como bolo de cenoura caseiro e quentinho, é impossível não lembrar-me dela confecionando na cozinha de nossa casa.

É como se voltasse a reviver todas as coisas.

A saudade faz-nos reviver momentos maravilhosos.


Essa é a diferença entre a dor da perda e a saudade.

As lágrimas de dor esvaziam o coração.

As lágrimas de saudade, enchem a nossa mente de lembranças, o coração de nostalgia e a face de sorrisos pelos momentos que passamos.


A saudade dá um sopro de ar fresco no vazio que foi deixado em nós.


Há um tempo atrás encontrei uma amiga da minha mãe no supermercado.

Ela não me reconheceu, pois há muitos anos que não a encontrava.

Perguntei-lhe se ela sabia quem eu era, e depois tirei os meus óculos para ajudá-la a reconhecer-me.

Ela olhou nos meus olhos e chorou. Eu fiquei sem saber o que fazer e o porquê.

Ela logo disse-me:

“Desculpa filho, mas ao olhar para ti, matei as saudades da tua santa mãe. A tua cara é a cara da tua mãe.”


Depois das pessoas queridas partirem, a nossa missão é continuar o legado e reavivar as memórias e a importância que elas tiveram e continuam a ter nas nossas vidas.


Por isso, o momento posterior ao de dizer adeus a alguém que nós amamos, não é viver a vida como se fosse o último dia, mas sim de passarmos a viver intensamente a vida.

Se vivermos como se fosse o último dia, esse dia pode ainda tardar e como humanos que somos voltaremos a viver pensando que esse dia nunca chegará.


Viva a vida intensamente.

Só assim você viverá preparado para partir e ver outros partirem.




@miguelduquecamacho


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